Pela primeira vez, desde o terceiro trimestre de 2009, a
sondagem indicou que a situação financeira das empresas é
insatisfatória.
No primeiro trimestre do ano, a indústria enfrentou aumento da
inadimplência dos clientes, maior insatisfação com a margem de lucro
operacional e menor acesso ao crédito, segundo sondagem divulgada ontem
pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). A estagnação industrial
nos últimos meses atingiu a saúde financeira das empresas - pela
primeira vez, desde o terceiro trimestre de 2009, a sondagem indicou que
a situação financeira das empresas é insatisfatória, e essa piora na
percepção foi puxada pelas grandes empresas.
A falta de demanda e um processo de ajuste de estoques que ainda não acabou (eles estão há 12 meses acima do planejado) passaram a ser acompanhados, no primeiro trimestre, pelo aumento da inadimplência das empresas junto aos bancos. A taxa de atraso superiores a 90 dias passou de 3,6% para 4,1% entre o primeiro trimestre deste ano e igual período de 2011.
A queixa em relação à inadimplência dos clientes cresceu nas empresas de pequeno e médio porte, ficando praticamente estável nas grandes. No primeiro trimestre de 2011, 16% das pequenas apontavam esse como um dos principais problemas enfrentados, percentual que subiu para 19,7% no primeiro trimestre deste ano. Entre as grandes companhias, piorou muito o lucro operacional e o acesso ao crédito.
Para Julio Gomes de Almeida, consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), o quadro de alta da inadimplência e redução do lucro operacional se explica pelo fraco desempenho da atividade econômica desde a segunda metade do ano passado. "São nove meses de resultado fraco", destaca ele, também professor da Unicamp. A desaceleração significativa dos investimentos e o menor apetite por bens duráveis (como automóveis e eletroeletrônicos) afetaram a demanda pelos produtos brasileiros, avalia Almeida. Entre as pequenas empresas, 30,1% reclamaram da falta de demanda no trimestre, salto razoável sobre os 26,7% do quarto trimestre do ano passado.
A sondagem da CNI mostrou uma alta da insatisfação das empresas com a margem de lucro operacional, uma tendência que se deu nas companhias de todos os portes. Nas grandes, o indicador caiu de 46,6 pontos no quarto trimestre de 2011 para 43,8 pontos no primeiro trimestre deste ano - valores abaixo de 50 indicam margem de lucro insatisfatória.
Essa insatisfação crescente é resultado da pressão sobre as margens do negócio, diz Edgard Pereira, sócio da Edgard Pereira & Associados (Edap) e professor da Unicamp. De um lado, elas são comprimidas pelo aumento de custos com mão de obra e energia; de outro, não há espaço para repasse de preços por causa da concorrência com o bem importado, afirma ele.
Carlos Kawall, economista-chefe do Banco J. Safra, faz a mesma leitura, mas ressalva que essa situação deve ser parcialmente revertida nos próximos meses, já que a recente desvalorização do real pode contribuir para tornar a produção nacional mais competitiva tanto no mercado interno quanto na exportação. "Se o patamar observado recentemente for mantido, como imagino, há uma melhora mais imediata principalmente para setores bastante expostos à concorrência externa", afirma Kawall, para quem, no médio prazo, a desoneração da folha de pagamento em troca de alíquota sobre o faturamento trará certo alívio para os 15 setores contemplados.
As empresas também reclamaram de modo generalizado da piora no acesso ao crédito. Para as grandes, o indicador caiu para 42,9 pontos de janeiro a março, abaixo dos 45,2 do trimestre anterior - inferior a 50, o número reflete dificuldade para obter empréstimos e financiamentos.
O aumento da inadimplência e a dificuldade na obtenção de crédito podem tornar a recuperação ainda mais lenta. "Continuo a avaliar que o pior já passou, mas a retomada não será vigorosa porque um dos elementos a compor esse quadro é a situação de crédito mais restrito. O problema não deve se tornar mais agudo, mas irá retardar a retomada", diz Kawall.
O economista Juan Jensen, da Tendências Consultoria, diz que os bancos têm sido mais cautelosos ao conceder crédito. Para ele, as restrições impostas pelo governo à captação de recursos no exterior, para evitar uma valorização mais forte do real, podem ter contribuído também para esse cenário. Ele acredita que mais empresas grandes - que antes tinham no mercado externo uma fonte barata de recursos - passaram a tomar empréstimos nos bancos aqui. Isso tende a elevar os custos para as grandes empresas, ao mesmo tempo em que rouba espaço das pequenas e médias, diz.
Para Almeida, é possível que o aumento do calote dos clientes enfrentado por companhias pequenas e médias leve a uma piora da inadimplência das pessoas jurídicas junto aos bancos, embora não de modo explosivo. A queda da Selic, a perspectiva de redução dos juros cobrados dos clientes e as medidas de estímulo à indústria adotadas pelo governo tendem a melhorar a situação no segundo semestre, acredita ele.
Um ponto importante ainda por resolver é terminar o ajuste de estoques, nota Almeida. Segundo a pesquisa da CNI, o índice de estoque efetivo em relação ao planejado caiu de 52,1 pontos em fevereiro para 51,6 pontos, em março - valores acima de 50 pontos indicam acúmulo acima do esperado.
Apesar de números ruins relacionados à situação financeira das empresas, a produção industrial avançou em março após seis meses seguidos de queda. Para a CNI, porém, esse resultado não é uma tendência, pois é um ajuste à forte retração da atividade industrial no fim de 2011 e no começo do ano.
Fonte: Valor
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